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01# Festival na História | 1967, "desbunde" e resistência à ditadura em Ouro Preto.

6 de jun. de 2022
8 min de leitura

Atualizado: 9 de fev. de 2023

01# Contracultura e Liberdade, esse era o clima no 1ºFestival do "Inferno", em 1967, em Ouro Preto.
1º Festival de inverno em Ouro Preto : Foto : Arquivo UFMG

Festival na História | O Jornal O Decolonial irá fazer uma série de reportagens e pesquisas bibliográficas e históricas sobre o Festival de Inverno na cidade de Ouro Preto, um Festival com forte caráter simbólico e muito importante para a juventude mineira e para o movimento Contracultural no Brasil.


Nosso primeiro tema é inspirado pelas referências e pesquisas do historiador Leon Frederico Kaminski e pelo livro Historias de Repressão e Luta na UFOP, Ouro Preto e Região, da Editora UFOP. São registros e analisadores históricos e documentais importantes para busca de entendimento e reflexão sobre o contexto politico e cultural em Ouro Preto e no Brasil e a importância dos festivais de Contracultura como forma de resistência à ditadura militar.



#01 - Festival na História | 1967, "desbunde" e a resistência cultural em Ouro Preto.


Milhares de viajantes, jovens e cantores, artistas de rua e pintores, estudantes dos quatro cantos do Brasil, entre eles muitos mineiros, que mesmo sob clima de censura e repressão, da ditadura militar, brasileira realizaram um evento histórico entre os dias 1º e 30 de Julho de 1967 na cidade de Ouro Preto.


O 1º Festival de Inverno em Ouro Preto foi uma realização da Ufmg e contribuiu positivamente na afirmação de novos valores de liberdade que sopravam ao redor mundo no final da década de 1960. Muitas pessoas e experiências se conectavam pela cidade. Segundo o estudo do historiador e professor Leon Kaminski, estudioso da temática do Festival de Inverno na cidade de Ouro Preto :


"As estatísticas publicadas pela imprensa (normalmente repassadas pela prefeitura do município) costumavam mostrar números não abaixo de 100 mil visitantes em Ouro Preto, durante o Festival de Inverno. Em 1971, teria chegado a 350 mil. Estes números podem estar superestimados, o que não é improvável. Porém, esses valores são as estimativas de um público flutuante ao longo do mês de julho, ou seja, não estavam todos ao mesmo tempo na cidade."

Novas experimentações e valores da juventude surgiam em todo o mundo através dos encontros e da circulação de ideias e debates que reivindicavam uma nova existência para suas vidas, lutas e destinos. Foi nesse contexto que aconteceu o 1 º Festival de Inverno de Ouro Preto em 1967. Segundo Leon Kaminski, eram tempos de desbunde :


"Eram tempos de desbunde (como parte das manifestações da contracultura foi chamada no Brasil), e, desta forma, o uso de substâncias alteradoras da consciência, como a maconha, e a liberdade sexual eram presenças constantes na vida noturna (e também diurna) do “festival paralelo”. Essa movimentação em Ouro Preto era vista negativamente por uma parte da população local, principalmente pelos setores conservadores, que defendiam os valores da tradicional família mineira. Estes chamavam o evento de “festival do inferno” e faziam constantes críticas ao evento, pleiteando inclusive a seu fim. Entre os turistas e visitantes que iam à Ouro Preto durante o Festival havia uma grande população de jovens de todos os tipos. Desde os que iam à Ouro Preto só para “curtir” o fim de semana até os hippies que chegavam no início de junho e iam embora no fim de agosto, que vendiam artesanato, acampavam nos adros das igrejas ou dormiam nos cemitérios e nas praças. Esse grande número de pessoas, somado aos participantes oficiais do evento (artistas, professores e cursistas), gerava uma intensa movimentação paralela às atividades do Festival de Inverno. Os contatos culturais, entretanto, não estão isentos de conflitos e tensões. Paralelamente às atividades oficiais do Festival de Inverno, havia o que foi chamado por moradores locais de “festival do inferno”, onde os jovens, que viviam o desbunde e a contracultura, apropriavam-se de espaços da cidade. Tais práticas entravam em choque com os costumes e valores tradicionais defendidos por uma parte dos moradores de Ouro Preto e pelos órgãos de repressão do Estado. Contudo, além dos conflitos, entre os jovens visitantes e os moradores da cidade houve também uma área de integração que ainda hoje são visíveis na cultura local."


Movimentos que ocorriam no mundo em 1967.

Malcolm X, assassinado em 1965 nos EUA.

A experiência dos movimentos revolucionários e também o repúdio às guerras imperialistas que aconteciam no planeta, geravam protestos e engajamento ao redor do mundo. A anarquia e rebeldia do movimento estudantil francês, que no ano seguinte faria a maior primavera estudantil da historia, conhecida como "Maio de 68". Nos EUA o Movimento Negro, representado pelos Panteras Negras, estava sendo difundido pelos estudantes e alguns jornais do Brasil. O assassinato em 1965 de um dos lideres do movimento negro, Malcolm X, levou a um grande debate sobre racismo e poder da População Negra nos EUA. Estava em evidência também o movimento Hippie que se fazia ecoar com suas bandeiras pela paz e pelo fim da guerra contra o Vietnã.


Na América Latina os feitos revolucionários do povo cubano em 1954, com as lideranças de Fidel e Guevara também estavam presentes no imaginário e nos enunciados da esquerda revolucionária no Brasil. "Che" como era conhecido seria assassinato praticamente 2 meses depois do 1º Festival de Inverno, no dia 9 de outubro de 1967.


Sobre as transformações culturais em curso e a apropriação cultural da mídia, Leon Kaminski afirma em seus estudos que :


"A segunda metade do século XX foi marcada por uma série de transformações culturais, amplificadas pelo desenvolvimento dos meios de comunicação. Os jovens, que ansiavam por transformar o mundo e lutavam pelas mudanças sociais e culturais, tentavam realizá-las na prática. As representações da rebeldia dos jovens da década de 1960 foram incorporadas pela mídia e pela indústria cultural e veiculadas em diversos países, possibilitando o surgimento de uma cultura jovem internacional. Essa cultura jovem, entretanto, não foi fruto somente dos meios de comunicação. Se, por um lado, os jovens apropriavam-se do imaginário vinculado na mídia, por outro, eles criavam meios alternativos de comunicação e expressão artística. Mas a circulação cultural entre essa faixa geracional possuía outros grandes aliados, como a prática da viagem e a tendência para a realização de atividades e eventos culturais coletivos, como happenings e festivais. Nesse sentido, o processo de festivalização da vida cultural ocorrido na segunda metade do século XX, proporcionava um lugar privilegiado para jovens de diferentes regiões encontrarem-se e trocarem ideias e experiências, para promover a circulação cultural. "


"Festival do inferno" e a repressão na Escola de Belas Artes.


A luta de classes e a defesa das liberdades democráticas e individuais no Brasil entrou em choque em Ouro Preto com os valores do conservadorismo moral e religioso à época, expressos na forte presença patriarcal da Igreja Católica, por órgãos de repressão e censura da ditadura, assim como políticos locais da direita e professores ligados aos militares. Alguns docentes universitários que lecionavam nos cursos tradicionais das Escolas Superiores de Ouro Preto também estiveram à serviço da repressão da ditadura na cidade histórica.


Nos dois primeiros anos do festival em 1967 e 1968, anos anteriores ao AI-5 a repressão era menos generalizada. Foi a partir da década de 70, com a criação da Brigada dos Vícios a e repressão já organizada na cidade de Ouro Preto, que as prisões e a censura aconteciam abertamente contra alguns participantes do festival, tido pelos militares como "subversivos".


Um pequeno fragmento do livro Historia de repressão e luta na UFOP, Ouro Preto e Região nos dá a dimensão politica e cultural em 1967 em Ouro Preto e sua relação com as Escolas Superiores na cidade :


"O Festival foi concebido em um momento histórico no qual a resistência ao regime ditatorial possuía grande expressão no campo cultural, antes da decretação do AI- 5 em dezembro de 1968, quando houve o recrudescimento da censura e da repressão em diversas esferas da vida cotidiana, incluindo a produção artística. Ligado a grupos de vanguarda artística mineira, o festival pode ser compreendido como integrante desse quadro de resistência cultural. Haroldo Matos diretor da Escola de Belas Artes em 1967, aponta que uma das intenções do evento, em seu início, era de servir como um canal de afirmação para os artistas e intelectuais perseguidos. Naquele ano, por exemplo, conforme documento presente nos arquivos e Assessoria Especial de Segurança e informação da UFMG, o comando da Infantaria Divisionária da 4ªRegião Militar solicitava providências à universidade em relação a professores da Escola que haviam sido indicados em inquéritos policiais militares acusados de esquerdistas."

Brigada antidrogas do Dops :


Uma brigada conservadora e repressora do DOPS denominada por "Brigada do vício" vigiava estudantes, repúblicas universitárias, bares e boates na cidade de Ouro Preto e perseguiam aqueles jovens que defendiam e praticavam a contracultura e a resistência à ditadura militar. A brigada do Vício não existia ainda no primeiro ano do Festival de Ouro Preto em 1967 mas fora criada três anos depois para criminalizar estudantes e participantes apontados como subversivos, hippies ou maconheiros. Leon Kaminski aponta que :


"A Brigada do Vício foi formada, em 1970, por determinação do secretário de segurança, coronel Edmundo Murgel, e era composto por homens da polícia política e do serviço secreto da polícia militar. O esquadrão era chefiado pelo inspetor José Leite, sob as ordens dos delegados David Hazan e Thacyr Menezes Sia . Este último bastante conhecido por ser um dos torturadores do DOPS mineiro. Seus membros passavam por treinamento com palestras de médicos e psicólogos, assim como aprendiam sobre as diferentes drogas, seus efeitos e como agiam as pessoas que as consumiam. O DOPS, por meio de acordos com a agência norte-americana USAID, vinha num processo de modernização de seus equipamentos e dos métodos de investigação. A criação da Brigada do Vício estava inserida nesse movimento. Ela contava, inclusive, com o apoio de um canil, cujos cães treinados eram utilizados para conter manifestações e, principalmente, farejar drogas. Entendemos que a criação de um setor de combate a entorpecentes no interior de um órgão responsável pela repressão política representa a compreensão por parte das autoridades, embora filtrada por um imaginário anticomunista, de que as transformações culturais em relação à sexualidade e ao uso de drogas poderiam ter um caráter subversivo, de contestação política. Para alguns setores anticomunistas, a revolução comportamental era uma arma de um pretenso “comunismo invisível” que arregimentaria entre os diversos movimentos, além de pessoas efetivamente comunistas, simpatizantes em diversos graus. Estes seriam pró-comunistas subconscientes e comunistas em estado de germe. Segundo Plínio de Oliveira, líder do movimento de extrema direita Tradição, Família e Propriedade (TFP) , eram “os métodos comunistas atuais, todo o imenso processo de deterioração moral, religiosa e cultural, que vai devastando sempre mais nossa juventude”.


Portanto o clima político e cultural nos primeiros anos do Festival de Inverno em Ouro Preto foi de extrema novidade e quebra de paradigmas para os participantes do festival e para população local de Ouro Preto, que em sua maioria aprovaram o Festival, excetuando uma pequena parcela representada pelo anti-comunismo conservador e católico na cidade.


Com suas contradições e acertos o festival continua até hoje fortalecendo a arte independente e gratuita na cidade de Ouro Preto, havendo sempre um significado político de resistência. Para Leon Kaminski a caminhada dessa construção cultural do Festival de Inverno pode ser entendida como :


"Lugar de encontro de jovens e de artistas de vanguarda, o Festival de Inverno foi uma das promoções culturais mais importantes do país em sua época. Para muitos, um espaço de resistência ou uma “válvula de escape” em meio à ditadura militar, no qual era possível vivenciar um pouco de liberdade. Liberdade de experimentação artística e de ensino, liberdade em relação aos olhares da autoridade familiar, e, até certa medida, liberdade para algumas práticas que contestavam os costumes e os valores tradicionais. Com dezenas de professores e centenas de alunos, os Festivais de Inverno de Ouro Preto tornaram-se um espaço privilegiado de circulação cultural e de surgimento de novas propostas artísticas. Apesar de todo o choque que o evento, como um todo, provocava na cidade, podemos perceber que além das críticas havia uma participação efetiva dos moradores no Festival, tanto no âmbito oficial quanto no paralelo. As vozes contrárias eram mais altas e por isso alcançavam maior repercussão. Arriscamos dizer que a parcela de moradores que era totalmente contra o Festival era minoria, mas que ficou marcada na memória de quem produzia o evento."



O Festival hoje.

Atualmente é realizado pela Universidade Federal de Ouro Preto e também presente nas cidades de Mariana e João Monlevade. O Festival ainda sobrevive e continua sendo um espaço cultural privilegiado para o surgimentos de novos debates políticos e culturais na Região dos Inconfidentes em Minas Gerais.


Após 2 anos sem o festival por conta da pandemia de coronavírus o Festival de Inverno está de volta em 2022 e será dos dias 1º a 17 de julho, com a temática "Encontros".


Redação | Jornal O Decolonial |


Referências históricas e bibliográficas:

  • POR ENTRE A NEBLINA: O FESTIVAL DE INVERNO DE OURO PRETO (1967-1979) E A EXPERIÊNCIA HISTÓRICA DOS ANOS SETENTA - LEON FREDERICO KAMINSKI.

  • Historias de Repressão e Luta na UFOP, Ouro Preto e Região. Editora UFOP.

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