A Luta pela água e a mineração nos Inconfidentes. A Vale S.A será hidrometrada?
Atualizado: 22 de mai. de 2022
Confira como foi o segundo dia de debates do III Encontro Regional por um novo modelo de mineração.

A luta pela água no Brasil e no mundo se intensifica de modo hostil, o que acontece em Ouro Preto e Mariana é a síntese do que vem ocorrendo no planeta. Existe hoje uma guerra velada, mas muito explicita para as comunidades atingidas, conduzida pelo imperialismo pelo controle de todo o estoque de recursos e reservas naturais existentes no planeta. Nosso país, em especial a região dos Inconfidentes em MG possui uma imensidade de riquezas naturais e minerais, o que nos transforma em alvo da exploração e da ganancia dos colonizadores há 521 anos. Indígenas ,africanos escravizados e os povos oprimidos pela coroa foram dizimados e nossas riquezas surrupiadas até os dias de hoje, é claro que sempre houve resistências e não será diferente agora. Nesse sentido a FLAMA/MG - Frente Mineira de Luta das Atingidas e dos Atingidos pela Mineração trouxe ao debate, durante o III Encontro Regional por um novo modelo de mineração, os impactos da atividade minerária nos recursos hídricos e naturais na região dos Inconfidentes.
Pouco se fala sobre o assunto, até porque a Vale S.A financia boa parte da produção acadêmica na Escola de Minas e financia também os meios de comunicação da região, o que dificulta pesquisas científicas isentas e coberturas midiáticas proativas sobre a dinâmica predatória da Vale S.A no estado de MG. Nós, da redação do Jornal O Decolonial, temos liberdade para trazer aos nossos leitores e seguidores o atual cenário de exploração e destruição causados pela empresa multinacional da mineração em nosso estado.
No segundo dia de debates o eixo estrutural da discussão apresentada foi a questão hídrica e sua relação com a mineração. Estavam presentes os convidados Yuri Gomes, Laura Rocha e Marcos Vinicius Polignano, com mediação de Daniel Neri também professor e militante da FLAMA/MG. Foram apresentados diversos dados alarmantes pelos convidados, um deles é a quantidade de água consumida pela Vale somente na região dos Inconfidentes. Segundo Yuri Gomes, professor de história da rede estadual e militante do PSTU em Mariana, a situação é critica : "Para vocês terem uma noção desse uso hídrico da mineração, só no ultimo ano em uma conta feita por especialistas diz que cada tonelada de ferro produzida exige cerca de 3 metros cúbicos de água, cada metro cubico são 1.000 litros de água, ou seja se pegarmos apenas um ano a Vale consumiu 900 milhões de metros cúbicos em um ano, transformando em litros são 900 bilhões de litros de água em um ano para sua produção mineral. Nem vou exemplificar Mariana, que é uma cidade de pequeno porte, mas Belo Horizonte, toda sua população e suas empresas consumiram em torno de 200 bilhões de litros água em um ano, ou seja umas das maiores cidades do Brasil consumiu 1/5 do que a Vale gastou de água no mesmo ano."
Diante de tamanho absurdo praticado pela sociedade anônima Vale, uma questão importante foi apresentada no debate "Será que a Vale será hidrometrada"

A professora do IFMG, campus Ouro Preto, Laura Rocha que também atua na politica sindical na região dos Inconfidentes abordou em sua exposição diversas preocupações em relação as politicas publicas que tem sido propostas para a gestão das águas no Brasil. Laura defendeu, a partir da leitura de Ailton Krenak "uma nova forma de estar no mundo". Laura Rocha avalia que " A gente só vai conseguir pensar em um novo modelo de mineração se a gente conseguir repensar nossa forma de estar no mundo, nossa forma de consumir o mundo, que inclui nossa relação com a água, com as serras, matas ciliares e animais. Acredito que essa nova forma deve ser anticapitalista e dentro de uma perspectiva decolonial."
Marcus Polignano é médico e professor colaborador da UFMG, atualmente também é diretor do projeto Manuelzão UFMG. O professor Polignano fez uma exposição precisa e bastante densa sobre as formações geológicas, as bacias hidrográficas e a diversidade social e cultural que envolve as bacias e os ciclos naturais que compõe nossa região e como a indústria da mineração interfere e produz efeitos negativos nesse ciclo.
O III Encontro acontece em meio a uma disputa muito dura e decisiva contra a privatização da água em nossa região. Em Ouro Preto o povo se uniu para barrar a SaneOuro mas ainda falta empenho e vontade política das instituições e do poder público municipal para acompanhar o anseio popular pela volta da SAEM no município.

Em Mariana um projeto de lei popular alavancado pelo PSTU/Mariana ganha adesões de movimentos de esquerda e das comunidades de Mariana, esse projeto de lei popular propõe uma nova gestão da SAAE em Mariana e apresenta propostas bastante concretas para transformar a autarquia municipal em uma grande referencia regional que funcione para atender ao bem estar e a saúde da população marianense e não em beneficio do mercado e da iniciativa privada que explora as riquezas hídricas e minerais em nossa região.
O III Encontro Regional por um novo modelo de mineração segue sua programação de debates em torno de um novo modelo de mineração , com controle público e com novas praticas de manejo e preservação ambiental, respeito as populações tradicionais e atingidas pela mineração.
Redação I Jornal O Decolonial I



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