Coluna Decolonial BR | A Elza é Nóiz.
Atualizado: 22 de mai. de 2022
Uma homenagem à gigante Elza Soares. 91 de paixão pela vida e pela cultura nacional.

A ELZA É NÓIZ
por : Paulo Henrique Borges, Pós Doutorando em Direito pela UFOP
Na tarde do dia de hoje, dia 20/01/2022 dia de Oxossi, faleceu a cantora Elza Soares, certamente uma das vozes mais bonitas do mundo.
Com esse falecimento o mundo ficou menos colorido, menos feliz e mais difícil.
Elza, mulher, preta, periférica, que sempre andou unida com a comunidade LGBTQIA+ e com todas as minorias, viveu sua vida em uma constante luta. Lutou contra toda forma de preconceito e limitação imposta por esta estrutura patriarcal, machista, racista, homofóbica e elitista criada pela modernidade. Sempre lutando para mais que somente sobreviver, ela desejava que sua vida, sua pele, sua cara fosse ponto de uma mudança social, que pudesse tornar o Brasil em um país mais plural.
“Mil nações moldaram minha cara
Minha voz uso pra dizer o que se cala
O meu país é meu lugar de fala”
Vamos sofrer o luto, mas como sempre, não teremos nem paz nem tempo para isso. Digo isso com o coração partido e só desejando ficar no escuro estudando a voz deste ícone. Certamente hoje foi o dia que mais recebi mensagens de amigos, pois todos sabem a admiração e importância que essa mulher tem para mim. Mas não me iludo com a possibilidade de um tempo de sofrimento e luto em um momento tão temerário o qual passa o Brasil. Então vamos transformar este luto em LUTA! Para que nunca mais tenhamos nada com o nome de “Planeta fome”
“Olha a rua 'tá vazia, é bom correr
Eu levantaria o sol até você
Some o dia, cai a noite fria
E o silêncio me arrepia”
Mas Elza não nos deixou sozinhos, ela está em nós, ela está conosco, A ELZA É NÓIZ. Ela nos deixou mais que músicas e livro. Ela deixou mais que lembranças e carinho. Ela deixou ensinamento! Ela deixou esperança! Os desatentos podem pensar que ela teve tudo nas mãos, mas a realidade é outra, ela nunca teve nada além de si mesma. Enfrentou mais de uma falência, teve de lutar para ter qualquer oportunidade e teve de enfrentar preconceito e desdém. Nunca calada!
“Quem tinha tudo na mão quem não prestou atenção quem tem tamanco não sobra
Quem tem cabeça, pulmão bexiga, rim, coração já vai pulando na cova
Quem é doente do pé? O pai de todos quem é? Cadê o rei da cocada?
'Tá na quebrada quebrou e o mundo todo afundou no dia da pá virada”
Não vou me delongar ainda mais sobre a Deusa. Só tenho que a agradecer por me ajudar a me desconstruir e reconstruir. A me mostrar que tenho sempre de me reinventar e me aceitar. Esse texto não é para Elza, este texto é para mim. Depois de receber essa notícia trágica, um vazio ficou em meu coração. Um choro está em minha garganta. Muito obrigado por me ouvirem. Hoje a noite será longa e escura. Mas amanhã o sol nascerá e voltarei ao meu posto de batalha. Batalha por um sistema social menos violento, onde não precisemos que tantas Elzas sofram a vida toda. Para que as próximas gerações não precisem de passar por tantas provações.
“Meu choro não é nada além de carnaval
É lágrima de samba na ponta dos pés
A multidão avança como vendaval
Me joga na avenida que não sei qual é
Assim como profetizou, ela cantou até o fim!”
E o que me acalenta o coração é que uma Deusa não morre, ela simplesmente volta para casa.
“Deus é mulher
Deus há de ser
Deus há de entender
Deus há de querer
Que tudo vá para melhor
Se for mulher, Deus há de ser”
Paulo Henrique Borges, Pós Doutorando em Direito pela UFOP




Compartilhamos das lutas, das dores, das alegrias, dos transitórios, das lacunas, das ausências, das saudades... e, hoje, desta saudade, em especial. Abração e forza irmão!
Lindo texto. Parabéns
Que lindo texto, Paulo! Elza foi um ícone na música e também enquanto cidadã consciente. Como foi dito, que transformemos nosso luto em luta, buscando dias melhores a todos e honrando seu legado.