COLUNA DECOLONIAL BR | Monark é nazista ou é tudo mimimi?
Atualizado: 14 de fev. de 2022
O texto de hoje da Coluna Decolonial BR aborda a demissão do apresentador Monark.

por : Paulo Henrique Borges, Pós Doutorando em Direito pela UFOP
Um dos temas mais comentados nos últimos dias é sobre as falas do apresentador Monark e de seu convidado Kim Kataguiri (PODEMOS) no programa Flow Podcast do dia 07 de janeiro. Durante o programa que durou cerca de quatro horas, o apresentador Monark se viu defendendo a criação de um partido nazista no Brasil, enquanto o deputado Kim Kataguiri (PODEMOS) repudiou o fechamento do partido nazista na Alemanha pós-guerra. Pois bem, vamos entender o ocorrido, já de antemão revelo que a ideia aqui é desenvolver uma leitura do ocorrido e não atacar os envolvidos, como estamos vendo pelas redes, mas ao mesmo tempo deixo claro o repúdio a toda forma de legitimação de violência.
Vamos entender o caso:
O programa Flow Podcast é um dos programas mais assistidos no Brasil, a ideia do programa é promover entrevistas com convidados, onde os apresentadores Monark e Igor 3k interagem livremente como se fosse uma conversa informal ou amistosa, inclusive consumindo bebidas alcóolicas e até mesmo fumando, o que aparenta ser maconha, como ocorreu na entrevista com o Sérgio Moro (PODEMOS). Sempre tentando demonstrar informalidade, principalmente para fugirem de suas responsabilidades jornalísticas, e aparentarem ser democráticos e plurais.
No último dia 07 de janeiro, os entrevistadores Monark e Igor 3K receberam, no Flow Podcast, os deputados Kim Kataguiri (PODEMOS) e Tábata Amaral (PSB), ambos representantes de parcela do pensamento da direita nacional. Entre vários temas debatidos esteve a questão da liberdade de expressão e de opinião. Foi neste momento que Monark defende a legalização da disputa argumentativa nazista, inclusive com a criação de um partido nazista no Brasil, a deputada Tábata Amaral (PSB) refutou de plano essa ideia. Enquanto Monark defendia tal atitude como liberdade de expressão, Tábata (PSB) refutava demonstrando que não se pode falar em liberdade de expressão se coloca em risco de morte uma parcela da população. No desenrolar da conversa Kim Kataguiri (PODEMOS) junta-se ao Monark em defesa da liberdade de expressão irrestrita, de forma que, tentando trazer seus interlocutores a racionalidade, Tábata Amaral (PSB) pergunta ao Kim Kataguiri (PODEMOS) se ele achava errado a Alemanha ter fechado o partido Nazista, e viu o seu colega Deputado afirmar que achava errado tal medida.
Sobre este episódio pode ser utilizado para refletirmos sobre alguns temas como:
Monark é nazista?
Qual é o problema de trazermos ao debate político ideias como as nazistas?
O Monark é nazista?
Essa resposta é fácil de encontrar, NÃO ele não é nazista. Monark pode ser utilizado, não por conta deste episódio apenas, mas a muito tempo, como sendo o reflexo do pensamento médio brasileiro. Ver as atitudes e falas deste apresentador e as analisar vemos que ele é como um espelho do cidadão médio, refletindo exatamente os pensamentos, incoerências e confusões existentes nesta população. E até por este motivo que o podcast é um dos mais vistos no país. Não que isso o isente de qualquer responsabilidade sobre suas falas e atitudes, ao contrário, sendo ele um comunicador de massa, tem uma responsabilidade social extra, se comparado com uma pessoa sem tal influência. Devemos recordar que esta não foi a primeira vez que ele se viu no meio de uma grande polêmica promovida por suas posições, ou talvez sua inabilidade de formulação e de expressão das ideias. Já houve caso onde foi acusado de racismo, machismo etc. Mas desta vez foi longe demais, colocando em risco uma parcela da sociedade com influência política e econômica, trazendo à tona a violência estrutural existente no país, onde há pessoas que valem mais que outras.
Voltemos ao caso, Monark não estava defendendo o nazismo, tampouco estava defendendo os ideais nazistas. O que ele estava fazendo é repetir uma ideia que está sendo difundida e aprofundada na sociedade brasileira a algum tempo, qual seja: A liberdade total de opinião e de expressão. Mas nesta defesa ele, sem a necessária compreensão do que é essa tal opinião e o que vem a ser liberdade de expressão, ele foi além do ponderável, defendeu a barbárie, ocorre que aparentemente não era este o objetivo. O que objetivava era a defesa da pluralidade de ideias e de expressão de forma a não limitar direitos a ninguém e a garantir que as ideias nazistas sejam combatidas dialogicamente junto a sociedade.
Não tem pouco tempo que a opinião se tornou algo importante na sociedade brasileira, tudo está se tornando opinião e, mais que isso, as opiniões devem ser respeitadas. Chegamos ao ponto de que opinião refuta a ciência, seja porque a pessoa tem uma opinião diversa aos dados científicos, ou porque a pessoa diz que os argumentos científicos são meras opiniões dos interlocutores. Vemos isso no caso das vacinas, aquecimento global, ações governamentais, etc. Até mesmo fatos estão sendo refutados por opinião. Essa forma de ação gera algumas consequências, a primeira é gerar a sensação de sapiência em toda população, ou seja, se a pessoa tem uma opinião sobre algo, e todos podem opinar sobre tudo, logo ela tem sabedoria e conhecimento sobre aquilo. Transformando a mera opinião em sinônimo de conhecimento e sabedoria. Outra consequência é a possibilidade de negar toda a realidade que desagrada a pessoa, com isso se algo não é o que a pessoa deseja que fosse, ela nega aquilo como verdade e cria sua própria realidade. E a terceira consequência é a destruição da realidade-real, pois se cada pessoa pode construir sua realidade, nada é real, ninguém conseguirá saber o que é ou não realidade, deixando as pessoas ainda mais inseguras, confusas e desesperadas, sendo campo propício para o surgimento de autocracias. É o que podemos chamar de pós-verdade, que tem o poder de destruir a sociedade como conhecemos.
O aprofundamento deste estado de opinião é a defesa da liberdade de expressão irrestrita. Se todos têm opinião sobre tudo, os mesmos têm o direito de se expressar elas. Essa é a máxima atual sobre a liberdade de expressão. Há uma defesa irracional a uma tal liberdade de expressão ampla e irrestrita no Brasil. Vemos essa defesa ocorrer, por exemplo, quando blogueiros têm seus blogs retirados do ar, ou quanto pessoas são excluídas das redes sociais por falas ou ações que ultrapassam o ponderável, ou seja, quando cometem crimes. Mas quando isso ocorre há de imediato uma movimentação de outros atores para defender esta pessoa, argumentando que há um estado de censura e de uma vigilância do ‘politicamente correto’. Essa defesa é feita mesmo que a pessoa tenha ameaçado a vida de outra pessoa ou de um determinado grupo de pessoas, ou até mesmo tenha incitado violência contra as estruturas estatais e sociais que são base da democracia, como a conhecemos. O que não é realidade, censura não é isso, o que está ocorrendo é um cumprimento da lei, a liberdade de expressão tem limites e até por isso é vedado o anonimato. As pessoas que defendem estes criminosos que sofrem sansões por conta de seus crimes nada mais são que cumplices.
Isso nos revela a existência de um desconhecimento, por parte da população, do que significa uma opinião e o que é liberdade de expressão, bem como quais são seus limites. Bem como uma ausência de reflexão sobre as consequências gerada pela defesa da existência destas liberdades de forma irrestrita. Com isso podemos dizer que provavelmente nem o Monark nem o Kim Kataguiri (PODEMOS) são nazistas, sendo eles apenas defensores dessa lógica irrestrita, onde as pessoas tudo podem falar e defender, ignorando de forma consciente ou não as atrocidades legitimadas pelos ideais nazistas. Sendo eles, então, somente cúmplices dos nazistas, ou talvez tenham cometido o crime de apologia ao nazismo que é tipificado no artigo 20, § 1º da lei 7.716/89.
Antes de entrarmos na próxima questão, vamos ter de demonstrar outra incoerência. Não há como falarmos de nazistas brasileiros, isso por si só é uma incoerência, pois os brasileiros são latinos e como não são arianos também foram perseguidos e são odiados pelos nazistas. Então a defesa de Tábata Amaral (PSB), não a transforma em uma ‘fada sensata’, menos ainda a coloca na esquerda, pois ela demostra, também um desconhecimento sobre a história e os ideais nazistas, ao limitar a perseguição aos judeus. O nazismo perseguiu os judeus, mas também os negros, homoafetivos, ciganos, deficientes, ou seja, todos que não se enquadravam nos moldes criados pela ideologia nazista.
Qual é o problema de trazermos ao debate político ideias como as nazistas?
Não há nenhum problema que as ideias nazistas sejam trazidas ao debate político, desde que seja como exemplos a não serem seguidos, como algo indesejável e que deve ser reprimido de todas as maneiras possíveis. O que não se pode é aceitar que tamanha barbárie seja, novamente, legitimada pelo Estado. A sociedade não pode possibilitar a existência de defensores que advogam em favor da aniquilação completa de seus inimigos ideológicos, sejam eles judeus ou os ‘os vermelhos’. A sociedade como um todo deve combater essas ideias e exigir a punição de todos os que as difundem. Se você não quiser compreender a necessidade de tal combate do ponto de vista coletivo, pode compreender de forma individualista, uma vez que mesmo que hoje essas ideias aparentemente não lhe atinjam, amanhã você pode se tornar o outro indesejado e ser perseguido.
Ideias como as que visam eliminar parcela da população deve ser rechaçada com toda a força, social, institucional, política, econômica etc. De forma a leva-la à extinção, ao apagamento e esquecimento como algo possível. Pois o que aprendemos com o filme V de vingança é que uma pessoa pode até morrer, mas uma ideia é imortal. Ou seja, ainda temos de conviver com os ideais nazistas e seus reflexos, ao menos até o momento de uma compreensão social do que isso significa, de forma a criar campo propício para enterrar de vez essa atrocidade.
Nós enquanto sociedade não podemos aceitar que tal argumentação trazida pelo apresentador e pelo deputado possam ser amplificadas por programas de tamanha repercussão. Devemos fazer pressão social para que o programa sofra sanção econômica e jurídica, além da social. Devemos deixar claro que isso é inaceitável. É nosso dever deixar bem claro que defender o nazismo extrapola e muito o ponderável. Mais que isso, que o programa, o apresentador e o deputado tem responsabilidade com o que defendem e que isso gera consequências e neste caso são consequências danosas a sociedade como um todo. Não vamos deixar que se escondam atrás da internet, da bebida ou da pretensa informalidade. Jornalismo é coisa séria, transmissão de ideias é coisa séria, nazismo é coisa séria. Como formadores de opiniões, devem refletir muito antes de defenderem algo.
COLUNA I DECOLONIAL BR I
por : Paulo Henrique Borges, Pós Doutorando em Direito pela UFOP



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