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COLUNA DECOLONIAL BR | Setor financeiro ocidental contra a Rússia: E o Brasil nisso?

15 de mar. de 2022
5 min de leitura

Atualizado: 25 de mar. de 2022

Guerra e economia. Confira o texto de hoje da Coluna Decolonial BR.

por : Paulo Henrique Borges, Pós Doutorando em Direito pela UFOP


A maior parte das análises sobre a invasão russa ao território ucraniano, que chegam ao grande público brasileiro, se atêm a uma visão binária e maniqueísta. Ou seja, têm uma visão míope e limitada, onde só consegue enxergar dois lados e pretende descobrir quem está certo e quem está errado, qual é o lado do bem e o do mal, numa lógica de que se tem de ‘torcer’ para um dos lados. Mas estamos falando de guerra e não de futebol, deixando a ressalva que até mesmo no futebol se pode torcer para os dois lados ou para nenhum deles.

Uma guerra é algo complexo, muito do que ocorre antes, durante e depois do conflito não chega a ser revelado para a população geral. Uma invasão de tamanha proporção quanto a da Rússia sobre a Ucrânia não pode ser reduzida a uma simples definição de certo e errado, pois há vários atores, para além destes dois países, envolvidos no embate.


Esta guerra não é um simples combate bélico, na realidade nenhuma guerra é somente a parte bélica, ouso dizer que a questão menos relevante e influente são os confrontos armados. Ela é uma guerra ideológica, entre o ocidente imperialista americano-europeu contra uma visão oriental de mundo, é o embate ente uma visão unipolar de mundo para uma multipolar, é uma guerra discursiva, onde se pretende capturar a realidade e a descrever de forma que mais atenda às necessidades do reprodutor, é uma guerra geopolítica, que visa definir zonas de influência, e é também uma guerra econômica e financeira, com embargos e dificuldades de circulação de bens, serviços e valores.

Parte da população brasileira já se deu conta de que o Brasil irá sofrer danos colaterais por conta desta guerra, seja por falta de insumos para a agricultura ou pela política de preços dos combustíveis praticados no país. Ocorre que uma guerra é algo imprevisível, logo não tem como sabermos de antemão quais danos a população brasileira sofrerá. Essa incerteza gera um grande receio na população, que já sofre com crise econômica, social e de saúde a anos e está vendo que tudo pode piorar. Essa população liga sua televisão e se depara com notícias das mais diversas sobre os desdobramentos da guerra, mas nem sempre os meios de comunicação deixam claro o que realmente as sanções impostas à Rússia significam, ou podem significar, para o Brasil.


Uma notícia que gerou dúvidas entre a população foi a suspensão das atividades das empresas, Visa, Mastercard e American Express na Rússia. As dúvidas e receios gerados se dão pelo fato de um maior acesso aos cartões de crédito e débito por parte da população brasileira nas últimas décadas e também por envolver as maiores empresas do setor em operação no Brasil. Mas este receio gerado por esta notícia não é necessário, pois o fim das operações destas empresas na Rússia só atinge a população russa, uma vez que elas são somente intermediárias de pagamento, ou seja, elas intermediam o crédito ou o saque (débito) da conta bancária do cliente com o banco.

Imagine: Você acorda e descobre que seu cartão de débito e crédito não mais funcionam. Pois é, viu como a vida se tornaria mais complicada, uma vez que estes cartões já fazem parte da nossa rotina? Foi isso que ocorreu na Rússia. Claro que a população foi informada antes da suspensão dos serviços, o que não deixa de trazer transtornos.


O intuito deste ato é dificultar o acesso a crédito, atrapalhando a economia interna russa. Sendo este um dos ataques que o setor financeiro faz contra a Rússia, mas que foi contornado com o início das operações do UnionPay, maior empresa do setor, bem como Sberbank, Alfa Bank e Tinkoff, o que deve ‘normalizar’ estes serviços de forma breve.

O setor financeiro impôs outras sanções a Rússia, como o bloqueio de ativos que estão fora do país. Isso significa que todos os investimentos, dinheiro, ou qualquer ativo que tenha valor monetário, do Estado russo, foi bloqueado. De forma que a Rússia não pode movimenta-los perdendo liquidez, ou seja, perde a facilidade de ter acesso a recursos. Hoje passam de 1 trilhão de dólares bloqueados no mundo como um todo. Esses bloqueios foram feitos pelo sistema financeiro com o apoio de vários Estados Nacionais.


Essa sanção também não deve interferir tanto no Brasil, pois a Rússia não está entre os maiores parceiros financeiros do país. Ele atrapalharia em caso de exportação para os russos, mas que não deve ocorrer por conta dos embargos impostos que dificultam a exportação para eles. Em um momento de crise financeira, como a que o Brasil vem sofrendo, qualquer perda de exportação é prejudicial, mas a Rússia representa 0,54% das exportações brasileiras, o que dá para o Governo Federal contornar com certa facilidade.

A terceira sanção imposta pelo sistema financeiro é o que realmente atinge o Brasil. O setor financeiro suspendeu a maior parte dos bancos russos do Sistema Financeiro SWIFT. Esse sistema é uma cooperativa entre bancos, que serve para troca de dados financeiros que possibilitam transações internacionais. Ou seja, ao retirar a Rússia deste sistema ela não consegue fazer transações financeiras internacionais, significando que não consegue receber nem enviar dinheiro para outros países.


Impossibilitando, desta forma, que haja o recebimento de valores por suas exportações e o pagamento pelas importações. De forma que se o país desejar vender para a Rússia, além do problema logístico para fugir dos embargos, terá de acreditar que ela pagará futuramente pelos produtos, o que não é usual. Como o Brasil necessita de produtos Russos, ele pode ter problema para se abastecer, a menos que encontre outro Estado de quem compra-los, o mesmo ocorre em relação às exportações.


Mesmo que uma guerra seja algo imprevisível a população brasileira não necessita se apavorar com a mesma. Falo isso pelo fato de o Brasil não estar no centro do conflito, que envolve atores internacionais diversos, mas o nosso país não é um deles. Não que essa realidade seja imutável, mas só mudará se o Governo Federal desejar ou se a situação mundial levar a tanto. Como a Rússia não é um país que o Brasil tenha uma ligação econômica, financeira e social, como é o caso dos Estados Unidos, China e Argentina, todo efeito colateral que possa nos atingir tem como ser mitigado ou até evitado pelo Governo Federal. Assim, não há a necessidade de uma histeria por parte da população, mas devemos continuar atentos ao que ocorre dentro e fora de nossas fronteiras.


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COLUNA I DECOLONIAL BR I

por : Paulo Henrique Borges, Pós Doutorando em Direito pela UFOP

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