Coluna I Decolonial BR I O lado obscuro da Caridade.
Atualizado: 14 de nov. de 2021
Na terceira edição da Coluna I Decolonial BR I, o coletivo aborda o conceito de caridade e suas implicações na realidade brasileira.

O lado obscuro da Caridade
por : Paulo Henrique Borges, Pós Doutorando em Direito pela UFOP
Em momentos de crise, como a que o nós estamos vivendo, é comum vermos ações de caridade ocorrendo por toda a parte. Mais que isso, elas são incentivadas e promovidas como se fossem algo nobre e necessário. E, consequentemente, amplifica o discurso que gera a sensação de que o brasileiro é um povo caridoso. Mas o que tem por trás desta caridade?
A sociedade moderna, a qual pertencemos, se estrutura de forma hierárquica gerando, desta maneira, uma enorme quantidade de violência. Mesmo que a maior parte das violências geradas sejam invisibilizadas, uma parte é visível. Por conta da hierarquização social, as pessoas, mesmo que violentadas, se projetam nas demais, seja para ver que há pessoas em pior situação, ou para criar expectativa de ascensão social (esta, quando vem, é somente ilusória). Nesta estrutura que a caridade se encontra, onde a pessoa visualiza um problema e atua nele, não como forma de realmente o solucionar, mas como forma de se sentir bem com sigo mesma a partir de uma situação ruim.
A caridade impede o ‘progresso’ da sociedade garantindo a manutenção do status quo dos detentores do poder e traz uma falsa sensação de dever cumprido. A pessoa que é caridosa com outra pessoa se sente bem, se sente superior à outra, sente que cumpriu seu dever, mas na verdade ela só encobriu a violência, gerando sua manutenção. Na realidade, ela não deseja resolver o problema da violência, pois a manutenção desta é benéfica à pessoa caridosa por mostrar a ela que, independente das violências vividas por ela tem alguém em pior situação, além de ser utilizada como uma autojustificação para a vida que ela leva.
O ato de caridade é um ato de demonstração de poder, quem é caridoso se porta como superior ao destinatário da caridade. Quando o destinatário de tal ato não se diminui ao recebê-lo ou nega-se a receber, o caridoso se vê em uma situação inusitada, pois sua procura por poder foi frustrada, gerando ainda mais violência contra o que deveria se submeter a sua caridade. O caridoso que pretensamente desejava sanar o que considera como sendo um ‘problema’, ao ver negada sua superioridade, é desmascarado e desvela a violência existente nesta relação, seja desqualificando o outro, seja piorando ainda mais sua situação.
Em momentos de crise, por óbvio que, devemos nos unir para ajudar nossos irmãos mais necessitados. Pois quem tem fome, tem pressa, quem perde tudo em enchentes, tem pressa, quem tem necessidades, tem pressa. Essas pessoas não têm a possibilidade de esperar que venha uma mudança sistêmica. Mas não devemos perder de vista que essa ajuda emergencial não é a solução. Se pudermos, devemos auxiliar os companheiros, mas nunca podemos parar de lutar para que a realidade mude, para que um dia possamos não mais necessitar de auxiliar ninguém, pois todos terão condições dignas de sobrevivência.
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