Coluna I Itabirito Inteligente I A luta do povo negro para reescrever a sua história.
NOVEMBRO NEGRO I Confira o segundo texto da Coluna Itabirito Inteligente que aborda os aspectos históricos do racismo no Brasil.

Por : Zé Roberto Vaz
A história nos convida, neste mês de novembro, a fazer uma reflexão sobre a importância do povo negro em nosso país. O quanto valeu a resistência dos quilombolas, o quanto as lutas de nossos ancestrais no passado e os embates dos ativistas de agora, nos levaram a alcançar duras conquistas. Precisamos enxergar os fatos históricos além da superficialidade, para entender a sua complexidade. Exemplo disto é a promulgação da Lei Áurea, em 1888, que colocou fim na escravidão dos negros. O que por um lado garantiu a liberdade aos cativos, por outro os deixou largados à sorte, em uma situação em que ficaram à margem da sociedade, sofrendo privações e discriminação. Com o processo de redemocratização do Brasil pós regime militar e com advento da Constituição Federal de 1988 e, posteriormente, com a chegada ao poder de uma corrente política mais progressista e popular, começa a acontecer a correção desta discrepância e o movimento negro ganha força, voz e reconhecimento, através da construção coletiva de políticas de inclusão e também da criação e fortalecimento de órgãos de promoção da igualdade racial, defesa dos direitos humanos e combate ao racismo. Mas, não podemos nos iludir e nem tampouco nos acomodar, pois ainda há muitas batalhas a serem travadas e muito ainda a ser conquistado, ainda mais agora com os claros sinais de retrocesso do atual governo, que tenta desconstruir políticas que deram aos negros sua devida visibilidade.
Fato é que, por mais que tenha havido alguma vontade política para dar protagonismo ao povo negro, ainda existe um racismo embotado em nosso país e que vem se manifestando de forma crescente nestes últimos anos. A sociedade reage, em sua grande parte, ainda de uma forma muito conservadora às causas raciais. É muito mais difícil para o negro conseguir um posto de emprego mais relevante ou uma vaga em universidade e, quando o assunto é a inserção do negro nas esferas do poder público, a história não é diferente. No que tange a gestão pública, mesmo havendo um movimento que defende uma política mais inclusiva, na maioria das cidades raramente vemos um negro ou uma negra ocupando um cargo de grande importância, por mais que eles demonstrem total capacidade e competência técnica para postular a função.
Em Itabirito, por exemplo, nenhuma das Secretarias Municipais é ocupada por um negro e são poucos os que ocupam cargos de segundo e terceiro escalão. No geral, nas esferas de poder ainda há um predomínio de uma elite branca, apesar de negros e pardos comporem a maioria da população brasileira. Em municípios tradicionalmente conservadores, as políticas de inclusão e de igualdade racial ainda estão em um patamar muito tímido de representatividade.
As oportunidades de inserção são poucas, bem como também as políticas ou iniciativas que tratem sobre um assunto que, a cada dia, se torna mais relevante e necessário. De fato, tudo isto é reflexo do racismo estrutural de nossa sociedade, que ora velado, ora escancarado, ainda faz parte de uma realidade muito cruel e, que nos últimos anos, através da ação nefasta de uma política de desconstrução da identidade e da luta do povo negro, promovida pelo (des)governo federal, vem ganhando ainda mais força.
Apesar de tudo isto, temos algumas conquistas e histórias de luta que precisam ser ressaltadas. Exemplo disso foi que, em 1988 surgiu o MOCABI – Movimento Cultural Afro Brasileiro de Itabirito, que foi o responsável pela criação da Semana da Consciência Negra na cidade, realizada desde então na segunda quinzena de novembro e atualmente sob a responsabilidade do Bloco de Ritmos Afro Axé-Igbá. Mesmo com algumas dificuldades referentes à parceria com o poder público para a sua realização, a edição deste ano, segundo um de seus idealizadores e organizadores, Antônio Carlos Dias (Toninho Telefunken), terá uma proposta girando em torno da valorização da identidade negra e no fortalecimento das ações coletivas para a manutenção das pautas defendidas pelo movimento. Dentre as atrações do evento estão oficinas de ritmo e percussão com o Bloco Axé-Igbá, a entrega da medalha Zumbi dos Palmares a diversas personalidades negras e defensoras da causa em Itabirito e o espetáculo África Canta e Dança. A novidade em 2021, é que a tradicional Missa Afro, será celebrada em duas ocasiões: a primeira, no dia 15 de novembro, às 10 horas, na Igreja do Rosário do Bairro Tombadouro e a segunda, marcando o encerramento do evento, no dia 21 de novembro, às 15 horas, na Igreja do Rosário de Acuruí.
É importante ressaltar que a cultura negra tem grande influência na história e nos costumes da cidade de Itabirito. Por exemplo, o pastel de angu, a mais conhecida iguaria da culinária itabiritense e divulgado nacionalmente, foi criado no século XIX, pelas escravas Filó e Maria Conga, que utilizavam o fubá e restos de carne para a sua produção. A receita foi incorporada e hoje a cidade conta com as mantenedoras do pastel de angu, que é um grupo de cozinheiras que produzem, divulgam e preservam esta tradição. Nossas primeiras igrejas, datadas no início do século XVIII, foram construídas com a força do trabalho escravo e, da mesma forma, muito ouro foi extraído da Mina de Cata Branca, precursora de nossa atividade mineradora. Sem falar em nossas tradições musicais, que passam pela Banda Dançante de Santa Efigênia e Nossa Senhora do Rosário (Congado de João Pascoal), pelo Grupo Cativeiro de Capoeira, na diversidade rítmica do Bloco Axé-Igbá e no samba de Pirulito da Vila. No esporte, o legado dos saudosos atletas Silvestre Fernandes e Irenice Maria Rodrigues, sem falar em tantos outros artistas, desportistas e personalidades que ajudaram e ajudam a construir esta história de luta e resistência.
Atualmente uma das bandeiras que estão sendo encampadas em Itabirito pelo movimento, diz respeito ao COMPIR - Conselho Municipal de Políticas de Igualdade Racial, criado há alguns anos, mas que atualmente não está em plena atividade. É imprescindível destacar sua importância e a necessidade de sua funcionalidade plena, ou seja, ele não pode existir simplesmente para justificar que os poderes constituídos o criaram como órgão de representatividade étnica, mas deve ser, de fato, um expoente na luta do povo negro, sendo protagonista de ações que garantam sua inserção e seu protagonismo em relação às políticas afirmativas. Além do mais, o COMPIR é instrumento primordial no fortalecimento das medidas contra a discriminação, na implementação de medidas destinadas a prevenir a violência e o racismo, na proteção de seu patrimônio cultural e na garantia de seus direitos, em especial no que tange gênero, etnia e culto.
A finalidade das políticas de igualdade racial não é provocar uma divisão entre negros e brancos, mas sim garantir que haja uma paridade entre ambos e não a prevalência cultural de brancos sobre negros. É garantir que as injustiças e o subjugo do passado não se repitam e que o povo negro possa ser também protagonista e tenha as mesmas oportunidades que todos. É preciso reivindicar, ter a consciência de que é extremamente necessário reescrever nossa história, pensando no reflexo que isto trará às próximas gerações, para que vivam numa sociedade sem preconceitos e que saiba respeitar e valorizar a diversidade étnica e cultural de nosso povo.
COLUNA I ITABIRITO INTELIGENTE I
Zé Roberto Vaz possui graduação e pós graduação em Gestão Pública.



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