COLUNA ITABIRITO INTELIGENTE | Cidade da revista ou cidade de verdade?
Atualizado: 8 de mar. de 2022
Confira o texto de hoje da Coluna Itabirito Inteligente por José Roberto Vaz.

Em qual lugar você vive : Na cidade da revista ou na cidade de verdade?
Por: José Roberto Vaz
Toda cidade tem suas riquezas: suas belezas naturais, suas ruas e edificações históricas, sua vocação econômica, sua tradição, seu povo. Mas, as cidades também vivem diversos problemas estruturais, econômicos e sociais, que precisam ser considerados e enfrentados com soluções viáveis. É muito fácil e cômodo falar somente sobre os aspectos positivos do lugar onde vivemos, valorizar tudo aquilo que nos é apresentado como belo e produtivo.
Mas, nem todas as coisas e nem todos os lugares são uma visão do paraíso.
Os olhos que admiram “o que há de melhor” na cidade não devem se fechar para a miséria social, as desigualdades, a falta de oportunidades e os problemas.
Os olhares precisam ser aguçados e críticos, para entenderem que nem sempre o que está nos discursos acontece na prática e nem tudo pode ser mostrado nas revistas. Muito do que é retratado nas peças publicitárias reflete aquilo que os governantes desejam que as pessoas pensem sobre a cidade e de como aparentemente ela vem sendo gerida, mascarando uma dura realidade, vivida principalmente nas localidades periféricas. As revistas mostram o que há de mais bonito e relevante na cidade, aquilo que causa uma boa impressão aos olhos que se voltam aos seus conteúdos coloridos, mas nem sempre fidedignos à realidade. Mostram uma cidade “eficiente, moderna, sustentável e transparente”, tudo devidamente escolhido a dedo e cuidadosamente editado, para parecer que as coisas funcionam muito bem. Mas, a verdade é que existe uma distância discrepante entre a cidade mostrada na revista para a cidade de verdade, com suas mazelas sociais e para onde os olhos do poder quase nunca se volvem. Outro fato que chama a atenção é que, lamentavelmente, em diversas peças publicitárias do governo, os direitos básicos de todo cidadão sejam tratados como um favor que o governante esteja fazendo às pessoas.
O fato de uma determinada gestão fornecer auxílio emergencial, cestas básicas, remédios, material escolar e outros insumos à população, não pode ser caracterizado como “favor”, pois é direito de todos e financiado com o erário público, portanto, o gestor nada mais está fazendo que a sua obrigação. O ideal seria, realmente, que o poder público contemplasse a cidade em toda sua pluralidade, dando voz e vez a todos os cidadãos, sobretudo aqueles que são excluídos por suas opções e aqueles que se encontram à margem da sociedade. Mas, estamos subjugados a governos de atitudes conservadoras, centralizadoras e patrimonialistas, afinados com os interesses de mineradoras, grandes corporações, pessoas influentes e grupos políticos distintos, colocando as reais necessidades da população em segundo plano. Quase sempre, estes governos são compostos de um núcleo duro, onde algumas pessoas impõem suas ideias com voz mais dominante e ativa que a do próprio gestor eleito, tomando decisões que vão de desencontro aos princípios que eles são os primeiros a defender. Ou seja, as decisões são tomadas de cima para baixo, baseadas em “princípios e achismos”, sem que haja um planejamento estratégico consistente e sem que os servidores públicos de hierarquia mais baixa (aqueles que “seguram o rojão”) e a própria população possam participar ativamente das discussões, através de construções coletivas.

A cidade da revista é encantadora, mas é preciso acordar para a realidade e perceber que a grande maioria da população faz parte da cidade de verdade, aquela que precisa ser reconstruída após as chuvas, aquela que precisa ser mais inclusiva, dinâmica e que possa ofertar uma melhor qualidade de vida a todas as pessoas. A cidade dos sonhos precisa, literalmente, de sair do papel e ser bem mais do que “algo bonito de se ver”. Mais que se importar com as imagens da revista e com a sua própria imagem, a gestão pública precisa se importar com as pessoas.
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Zé Roberto Vaz possui graduação e pós graduação em Gestão Pública.



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