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COLUNA ITABIRITO INTELIGENTE | "O orgulho que dá vergonha." Por: José Roberto Vaz.

23 de mar. de 2023
3 min de leitura

Enquanto vereadores perdem tempo com "orgulho hetero" servidores municipais lutam por direitos e contra reforma a administrativa no município de Itabirito.

charge : Natalia Prisma

"O orgulho que dá vergonha."

Quando falamos de gestão pública e dos Poderes Constituídos, imaginamos que os membros do Executivo e do Legislativo, eleitos democraticamente para serem os representantes do povo, tenham o mínimo de conhecimento e responsabilidade para exercer o cargo que lhes foi confiado pela população.


A cidade tem problemas desafiadores como o da mobilidade urbana, da saúde, da educação, da segurança, do meio ambiente, dentre tantos outros, que precisam ser tratados com seriedade e eficiência. Porém, em pleno 2023 (ano do centenário de emancipação político- administrativa de Itabirito), nossos representantes parecem não ter entendido qual a finalidade do poder que lhes foi confiado.


Na reunião da Câmara Municipal de Itabirito do dia 20 de março, importantes projetos que tratam da reforma administrativa proposta pelo Executivo e que impactam diretamente nas condições de trabalho, direitos e qualidade de vida dos servidores estavam em pauta. Boa parte destes servidores que estão sendo diretamente afetados por esta reforma estiveram presentes à reunião, juntamente com os dirigentes do SINDSEMI – Sindicato dos Servidores Públicos do Município de Itabirito, se posicionando contrários ao pacote da reforma administrativa, cobrando maior valorização da classe e a sua efetiva participação na construção coletiva destes projetos, que foram encaminhados ao Legislativo sem que os servidores e o Sindicato fossem ouvidos. Com pauta de tamanha importância para ser discutida na reunião, outro projeto de lei “roubou a cena" o que instituía o “Dia do Orgulho Hétero”.



Tal projeto foi submetido à duas Comissões Permanentes, sendo que os vereadores membros destas comissões emitiram parecer favorável à sua aprovação. No momento da discussão, não houve nenhum tipo de manifestação, contestação ou pronunciamento por parte de nenhum dos vereadores que, em seguida, aprovaram o projeto de lei em primeira votação.


Cabe ressaltar que, dias como o do Orgulho LGBTQIA+, o da Consciência Negra, da Mulher, dos Povos Indígenas foram instituídos para simbolizar suas lutas, sua resistência e sua afirmação. Mas, orgulho hétero tem algum tipo de propósito? Qual justificativa plausível pode ser dada para que tal dia seja instituído no calendário de datas comemorativas do município? Fato é que gays, lésbicas, negros, indígenas e mulheres constantemente são vitimados por algum tipo de preconceito ou violência, enquanto que ninguém sofre preconceito simplesmente pelo fato de ser heterossexual. Não consigo classificar qual é a coisa mais absurda nisso tudo: o projeto em si ou a aprovação da Câmara. O silêncio dos vereadores mediante um projeto desses me assusta! Um projeto que, no seu nascedouro, intencionalmente enaltece a figura do macho hétero e, ao mesmo tempo, menospreza o valor de tantas outras lutas. Tal absurdo se dá exatamente no mês de março, onde também é celebrado o Dia Internacional da Mulher e não leva em consideração os inúmeros crimes de violência física e psicológica contra as mulheres e a população LGBTQIA+, não só a nível de Brasil, mas no próprio município.



Por aqui são cada vez mais crescentes os registros de casos de assédio, preconceito e violência doméstica, sendo que, tantos outros casos como este nem chegam a ser registrados e acabam ficando subnotificados. Nossa cidade registrou um caso de feminicídio há cerca de dois anos e, recentemente, um crime bárbaro de homofobia contra um conhecido empresário, que acabou resultando em sua morte. E, um projeto de lei que trata "orgulho hétero" só tende a incentivar (mesmo que indiretamente) a perpetuação de tantos outros tipos de violência.


Por fim, o poder público que, através de seus representantes deveria implementar políticas que possam favorecer as minorias, conhecendo suas demandas sociais e suas necessidades e estabelecendo ações que garantam a sua integridade e sua ampla participação na sociedade e nas decisões políticas e que também deveria valorizar a atuação dos servidores públicos, que são os grandes responsáveis em fazer chegar até a população as obras, os atendimentos e tudo o que diz respeito às ações públicas, se dá ao ridículo de dar holofote ao Dia do Orgulho Hétero e corroborar para que Itabirito, no ano de seu centenário, tenha sua história manchada por uma atitude de desserviço e seja motivo não de orgulho, mas de vergonha a nível nacional.


COLUNA I ITABIRITO INTELIGENTE I

José Roberto Vaz possui graduação e pós graduação em GestãoPública.

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