DDC DECOLONIAL | "Aqui é PRETO SEM AÇÚCAR, não tente me refinar". Banda OQuadro lança seu 3º álbum.
Atualizado: 22 de mai. de 2022
CONEXÃO MINAS - BAHIA | Banda OQuadro lança seu terceiro álbum chamado "Preto Sem Açúcar".

DDC Decolonial - Dica de Cultura de hoje vem de Ilhéus na Bahia, nossa redação entrou em contato com a assessoria e integrantes da banda OQuadro.Por : José Roberto Vaz
REDAÇÃO JORNAL O DECOLONIAL | Minas Gerais e Bahia, cada qual com suas particularidades, compartilham em comum a história de negros escravizados, que quer seja nas minas de extração de ouro ou nos engenhos de produção de açúcar, contribuíram sobremaneira na construção da riqueza de nosso país, mas pouco usufruíram dela. Em um determinado momento, estes negros levantaram sua voz clamando por liberdade e por dignidade e, mesmo com a abolição da escravidão, esta luta vem sendo travada arduamente até os dias atuais, onde a maioria destes negros ainda passa por privações, preconceito e é colocada à margem da sociedade. E, neste universo, a musicalidade também tem seu papel, ao se apresentar como autêntica expressão da arte e da cultura deste povo, sendo contraponto a um sistema opressor, se projetando como uma alternativa num horizonte de possibilidades e aspirações.
"Os preto só quer sonhar com a tal da equanimidade, liberdade né, paz de espirito, PAZ."
LANÇAMENTO DO 3 º ÁLBUM | Há pouco mais de um mês, OQuadro lançou seu terceiro álbum intitulado Preto Sem Açúcar, onde esta diversidade de mentes pensantes, cada qual com suas peculiaridades, se soma para produzir um álbum de uma sonoridade plural e única, um trabalho onde é perceptível a entrega de cada um e com uma concepção diversa, construtiva, libertadora e totalmente “fora da caixa”. São quinze faixas que contam com algumas participações ilustres, com destaque para artistas como Ellen Oléria, Xênia França, Davzera, Tuyo, Jorge Du Peixe e o ganês DJ Sankofa e conta com mixagem e masterização de Pedro Itan e a produção fonográfica do selo Isé. O que torna este trabalho diferenciado é o conjunto melódico e poético, que se apresenta também de forma crítica quando se propõe a tocar em feridas ainda abertas neste processo histórico e político da estrutura racista, que vem desde as lutas travadas na ancestralidade até as lutas dos dias atuais. As músicas, que nos convidam a uma reflexão mais aprofundada sobre o racismo, o extermínio dos povos negros, a fome, a desigualdade e a intolerância, também nos inspiram e convidam a encampar, com muita coragem e determinação, esta luta por visibilidade e por dignidade.

INDUSTRIAL CULTURAL NO BRASIL | É fato que o mercado fonográfico e midiático brasileiro ainda está muito concentrado no eixo Rio - São Paulo, num ambiente muito propício a “conhecer mais sucesso do que música em si” e onde ainda existe uma segregação a ritmos periféricos como RAP e hip hop e também ao que é produzido em outras regiões. Mas não é o fato de algumas portas estarem fechadas que impedirão a estes artistas negros de trilhar outros caminhos e também buscar seu lugar ao sol. A banda baiana OQuadro, formada há mais de vinte anos na cidade de Ilhéus, é um destes exemplos e faz questão de escrever (e muito bem escrita) sua própria história. Composta por Jahgga (percussão), Ricô (baixo, voz e produção), Nêgo Freeza (voz), Rodrigo Dalua (guitarra e synths), Rans Spectro (voz) , ORIXAFRICANO (bateria e voz), Mangaio (DJ) e Jef Rodriguez (voz), estes artistas formam este coletivo e fazem um som que traduz toda este espírito de resistência e representatividade.
Vale ressaltar, que este trabalho e o que ele representa como perspectiva de construção da identidade e musicalidade negra, em muito se assemelha com o olhar decolonial a que nos propomos, ao dar uma percepção crítica ao que o colonialismo quis tornar imperceptível. E, mesmo com a pandemia e seus impactos consideráveis ao setor cultural e com a política do governo federal e seus constantes ataques à produção cultural brasileira, sobretudo à cultura e identidade negra, “Preto sem Açúcar” se coloca numa posição em que contrapõe a toda esta desconstrução, com a atitude e a sabedoria necessárias de quem sabe ao que veio e aonde quer chegar.

Ainda sobre o álbum, em conversa com a nossa redação o vocalista Jef Rodriguez,
afirma que:
"O Preto Sem Açúcar é mais que música, é uma obra com diversas camadas e possibilidades de leitura. É enfrentamento para ser o que somos plenamente, sem tem que seguir um modelo colonial de subserviência e/ou cordialidade para ser aceito. Existem hierarquias e prateleiras estabelecidas para o “lugar do preto” na sociedade e, nesse sentido, nossa música é esquiva e contragolpe, resultado de um conjunto de reflexões que viemos fazendo cotidianamente diante desse racismo que nos sorri, mas age como aquele vírus que muda de forma para não ser percebido. Quanto mais amadurecemos nosso olhar, melhor percebemos que esse momento político é apenas parte de uma máscara que vem caindo gradativamente. Colocar esses assuntos em pauta é somar com as lutas pela emancipação física, mental e espiritual do nosso povo".
Enfim, não é nenhum tipo de exagero afirmar que Preto sem Açúcar, é mais que simplesmente um álbum musical: é um convite para sairmos de uma condição de inércia, tanto pelo ritmo e a poesia contagiantes de cada faixa quanto por sua proposta de nos prover a sensação de pertencimento a todo este contexto histórico e cultural. Por fim, nada mais coerente que presentear não só nossos ouvidos, mas também a nossa espiritualidade, música por música, com a percepção que cada uma delas nos permite ousar, experimentar e vivenciar.
Confira o álbum - PRETO SEM AÇÚCAR -
Redação | Jornal O Decolonial |



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