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Manifesto Ou(t)ro Preto. | Da escravidão à falsa abolição.

13 de mai. de 2022
4 min de leitura

Atualizado: 21 de mai. de 2022

O combate à discriminação racial e a desigualdade continuam sendo prioridades.
Foto : Tânia Rego - Agência Brasil

por : Douglas Aparecido vulgo Douguinissimo


Os Pretos no Brasil, após a abolição da escravatura em 1888, continuaram a ter o mesmo destino que seus ascendentes traficados para a América e escravizados desde 1500. Nunca houve no Brasil um trabalho efetivo e eficaz, com o objetivo de solucionar as disparidades raciais resultantes do processo de escravidão que durou 358 anos. O Brasil, último país a “abolir” a escravidão negra é um país racista, que não planejou, em nenhum momento de sua história, formas de readequação de sua população Preta com o fim do tráfico negreiro.

Somos o segundo país com a maior densidade de população Preta no Mundo, e aos Pretos brasileiros estão reservadas as piores condições sociais. Segundo o IBGE, 53,6% da população brasileira se declara negro ou pardo. Destes, 70% vive em estado de extrema pobreza, nas piores moradias e com os piores empregos. Além do analfabetismo entre os Pretos ser imensamente maior de que entre os brancos, o sistema de educação ainda se empenha todos os dias, em roubar e menosprezar a história e a memória do nosso Povo, que vive em atmosferas insalubres, destrutivas e vulneráveis, sem representatividade e acima de tudo, subjugados. Os Pretos compõem 75% da população carcerária no Brasil.

O Brasil foi o último país a abolir a escravidão e a cada 12 minutos um Preto é assassinado. O que está acontecendo? Precisamos falar sobre o que está acontecendo. Precisamos falar sobre o que está escondido e que não é contado nos tradicionais livros de história. É uma questão de direitos humanos que a história do Povo Preto seja revelada para o mundo, como de fato foi. O Povo Preto precisa saber sua origem. O Povo Preto precisa entender o real motivo de seus antepassados terem sido sequestrados e submetidos ao trabalho escravo em várias partes do mundo. Faz-se necessário e é urgente, a construção de mecanismos efetivos para estabelecer o respeito e a dignidade do Povo Preto; solução dos crimes de racismo e discriminação; a criação de novas oportunidades de existir e o combate ao Genocídio Preto.


Mais uma vez é necessária a libertação da escravidão. Desta vez, da escravidão, além da escravidão trabalhista, é preciso falar também da escravidão ideológica, que é construída a mais de 400 anos e vem sendo reconstruída e alimentada ao longo de todo processo histórico do Brasil, velada sob a falácia da “democracia racial”. É Preciso ter em mente que no Brasil, o Preto é duplamente excluído. Esta dupla exclusão se estabelece tanto na esfera criada pelo escravismo, onde estes indivíduos foram considerados “máquinas animadas”, seres inferiores e aptos apenas ao trabalho braçal; quanto pelo projeto de embranquecimento do país, criado pela elite brasileira, por acreditar que o Povo Preto era a causa da degradação do país e que era necessário ter no Brasil uma raça superior, europeia. O Embranquecimento foi uma política de estado para promover um processo de clareamento do país, cuja ação era incentivar a imigração de povos europeus e exterminar negros.

O efeito disso é tão forte, que dentre os 53,6 % brasileiros que se consideram não brancos, 45% se considera pardo, enquanto apenas 8,6 se considera negro. Preto no Brasil nunca teve vez, assim diz a história. Basta pegar os livros didáticos e as grades curriculares; a narrativa construída apresenta, Pretos como escravos, seres desalmados e inferiores, pegos aleatoriamente no continente africano e transportados nos navios negreiros, para a execução de trabalhos braçais nas Américas. Em momento algum, ouvimos falar sobre a África, como referência de inteligência ou domínios técnicos; não ouvimos falar de seus impérios, de Reis e Rainhas, como Nzinga, Ranavalona e Mansa Musa; sobre sua riqueza, o exímio domínio das artes de extração e manipulação de diversos minerais, salve o trabalho com metais, o ferro, o bronze e, em especial, com o ouro.

Não ouvimos falar da África antes da chegada dos invasores portugueses, ingleses, franceses, belgas, dentre outros países europeus. Em momento algum nos é dito que o motivo do sequestro, e toda crueldade cometida na diáspora, estava relacionado com a expertise, a ciência e a inteligência destes indivíduos. A capacidade que tinham em desenvolver diversos tipos de atividades práticas, essenciais para concretização de qualquer empreendimento, seja na agricultura, na construção civil, mineração, metalurgia, etc. Antes de 1500, antes da chegada dos invasores europeus, a África era um continente extremamente evoluído, mas isto não é divulgado. Não lemos, não assistimos, não ouvimos falar (em veículos de comunicação oficial) sobre a imensidão da África, que não é um país e sim um continente; sobre suas riqueza minerais, que inclusive é o motivo da opressão que lhe é imposta até os dias de hoje; sobre a diversidade de nações que existiam e existem, o quanto estas resistiram contra o sistema colonial-escravista e ainda resistem contra o imperialismo; sua diversidade étnica que inclusive é a maior do mundo; Não é acessível a todos, informações e conhecimentos sobre a África, principalmente, sobre antes da apropriação e destruição, antes do sufocamento da Inteligência Africana, a Inteligência de nossos Ancestrais.

Durante o Séc. XVIII a Europa vivia o Século das Luzes, enquanto no Brasil, acontecia o Século da escuridão, exatamente porque é o período histórico com menos informações disponíveis historiograficamente. Grupos de historiadores, desde a década de 70, tem realizado profundas e imensas pesquisas, a partir de documentos em arquivos públicos e registros de viajantes, sobre o que foi, de fato, o ciclo do ouro no período colonial. As informações recolhidas são as mais surpreendentes e impressionante, há um ocultamento sobre um dos períodos mais significativos da construção do Brasil e do mundo como vivemos.


A saber, os valores civilizatórios afro-brasileiros são oralidade, energia vital, ludicidade, memória, ancestralidade, cooperatividade, musicalidade, corporeidade, religiosidade e circularidade, elementos fundamentais, para o impulso ao salto capaz de apresentar outras visões de mundo, outra história, Outro Preto com outras oportunidades de existir e se libertar. Só conhecimento, somado a inteligência liberta.


por : Douglas Aparecido vulgo Douguinissimo

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