Pelo retorno da Top Cultura TV e por mais investimentos na comunicação pública nos Inconfidentes.
Atualizado: 18 de jan. de 2022
Coluna Decolonial BR aborda a suspenção das atividades da Top Cultura TV.

Mas e a Branquinha? Pelo breve retorno da TOP Cultura.
por : Paulo Henrique Borges, Pós Doutorando em Direito pela UFOP
Nós, da região dos Inconfidentes, fomos surpreendidos, no dia 04 de janeiro de 2022, pelo comunicado divulgado pela TOP Cultura. Neste comunicado, a única concessionária de televisão da região, com programação própria, informava a sociedade que estava suspendendo suas atividades. A justificativa para tal suspensão, depois de 26 anos de operação, foram problemas financeiros de sua mantenedora, a Fundação de Educação, Arte e Cultura (FUNDAC).
Mas qual é o problema disso?
Bem são vários os problemas, acredito que o maior deles é a perda de voz da população da região. Branquinha, aqui reavivada, será nossa bandeira afetiva em prol do breve retorno da nossa emissora regional. Para quem não conhece, branquinha era uma cadela muito amada, que ficava no Pilar, tendo a fama de assistir as missas e impedir que outros animais a atrapalhasse. Era uma cadela amada e cuidada por toda a sociedade ouro-pretana. A TOP Cultura a eternizou com uma bela reportagem, reportagem essa que saiu da região sendo retransmitida por outras emissoras de maior alcance e ainda podendo ser assistida pelo YouTube. Para alguns, tais reportagens não são relevantes frente as superproduções jornalísticas da grande mídia. Ou diante de temas como política, economia, relações internacionais, etc. Mas essas pessoas estão equivocadas, são reportagens como essa que dá voz a população local, entrevistando os moradores e valorizando suas vidas e histórias. Isso porque a vida acontece nas cidades e não na capital do estado, do país, no mercado financeiro, orçamento público, mas sim em Ouro Preto, Mariana, Itabirito, Ouro Branco, ou onde quer que a pessoa resida e conviva.
Independente se eu concorde ou não com a abordagem da emissora sobre os assuntos, vejo sua importância para a democracia brasileira. Para conversar conosco sobre este assunto vou evocar o professor da USP Renato Janine Ribeiro, que em entrevista ao podcast Fora da Política Não Há Salvação (programa #112), programa de Claudio Couto, onde explica que a democracia sempre foi temida pelas classes dominantes e que desde a Grécia antiga há a certeza de que ela formaria um governo dos pobres. A democracia, se vista de forma instrumental, gera a sensação de igualdade entre as pessoas, pois todos teriam o mesmo poder no resultado final. E esse foi o motivo de tanta resistência ao sufrágio universal, ou seja, permitir que todos possam votar e ser votados. Essa resistência se deu pelo fato de haver mais pobres que ricos, mais mulheres que homens e assim as eleições poderiam gerar governos que iriam contra os interesses das elites.
Renato, na entrevista, também explica que o sufrágio universal só foi autorizado após a construção de uma máquina midiática que garantisse que a população fosse guiada em direção aos interesses das elites. Vemos esse efeito de forma clara no Brasil, a “grande imprensa” é dominada por poucas famílias, que falam, basicamente, a mesma língua e defendem os mesmos interesses, de forma a impedir que a sociedade se torne plural e exerça a real igualdade. A pluralidade de vozes só terá visibilidade a partir de uma desconcentração e democratização das mídias. E neste objetivo a perda da TOP Cultura é um retrocesso que pesa para a sociedade como um todo. O “O Decolonial” foi criado para possibilitar que outras vozes fossem ouvidas pela sociedade, de forma a fortalecer a autonomia social e a democracia real.
Sem falar em nome do editorial do jornal, mas sim em nome próprio, venho agradecer a TOP Cultura por seus 26 anos de trabalho e desejar que a suspensão seja breve e logo possamos ver nossas histórias e nossas vidas novamente na tela da televisão. Poderia abordar outras áreas que serão atingidas negativamente por tal suspensão, como a perda de empregos, de possibilidade de estágio, de visibilização educacional e cultural. Mas vamos nos ater ao pesar de não mais podermos ver nossos afetos reais, nossas vidas, nossas famílias, na telinha da televisão. Cabendo apenas desejar que a suspensão não se estenda, menos ainda que se torne definitiva. E aqui fica a pergunta, quem vai contar a história das nossas branquinhas?
COLUNA I DECOLONIAL BR I



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