Poesia de Adélia Prado para desavisados. | ODecolonial.com
Adélia Prado e as diversas perspectivas do ser feminino.

DICA DE LEITURA | Adélia Prado nasceu em Divinópolis-MG no ano de 1935 e seu encantamento pelas palavras e pela poesia acontece aos 15 anos, quando Adélia perde a mãe, o que lhe impulsiona no mundo literário com mais força e intensidade. Aos 20 anos começa a lecionar como professora no Ginásio Estadual Luiz de Mello Viana Sobrinho, profissão de fé que Adélia exerceria com dedicação por 24 anos. Foi através do poeta Carlos Drummond de Andrade que a escritora mineira desbravou os espaços poéticos já consagrados e conseguiu a inserção de suas poesias e textos no cenário literário mineiro e nacional.
Em 1976 lança seu primeiro livro chamado "Bagagem", livro que consagra uma das mais conhecidas poesias da autora chamada "Com Licença Poética". Em 1978 Adélia ganha o premio Jabuti de Literatura com o livro de poesias "O Coração Disparado", mesmo ano em que Adélia passa a se dedicar integralmente a escrita.
Dois anos depois, em 1980, Adélia orbita também no universo teatral e dirige a montagem da peça "O Auto da Compadecida", pelo grupo Cara e Coragem.
Adélia publicou em sua jornada de escritora e poeta um total de 24 livros entre poesias, prosas, crônicas e diversos outros estilos literários e artísticos. Recebeu diversos prêmios entre eles Prêmio Jabuti de Literatura, Prêmio ABL de Literatura Infanto-juvenil, Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional, Prémio da Associação Paulista dos Críticos de Arte, Prémio Clarice Lispector.
Sua poesia ficou conhecida por retratar o cotidiano sob o olhar “feminino” e não propriamente o olhar feminista e libertário.
Hoje aos 87 anos Adélia é reconhecida mundialmente, sendo referência para diversos escritores e poetas, como é o caso do consagrado escritor moçambicano, Mia Couto, grande admirador do trabalho literário de Adélia Prado. Um dos poemas consagrados da escritora mineira foi escrito em seu primeiro livro chamado "Bagagem" (1976). Confira o poema na íntegra :
Com licença poética
Adélia Prado (1976)
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.Redação | Jornal O Decolonial |




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