Saiba o que é o “Escudo das Américas” e quais os riscos para o Brasil e para o continente sul-americano.
Por trás da retórica do combate às ameaças do narcotráfico, especialistas apontam uma clara estratégia geopolítica : manter a América Latina sob a esfera de influência econômica e militar dos EUA.

INTERNACIONAL | O cenário geopolítico do continente sul-americano passa por transformações perigosas na atual conjuntura mundial. Sob o comando do governo, de extrema direita de Donald Trump, os EUA reativou com força total seu intervencionismo e busca por hegemonia total sobre o continente sul americano e caribenho a partir de em uma abordagem denominada de "Doutrina Donroe", uma reinvenção agressiva e contemporânea da Doutrina Monroe de 1823, que consagrou o lema "a América para os americanos".
O marco inicial desta política imperialista é a iniciativa "Escudo das Américas", uma aliança multilateral lançada formalmente pelos Estados Unidos. Anunciada sob o pretexto de criar um cordão de proteção contra o crime organizado, o narcotráfico e a instabilidade institucional na região, a coalizão funciona como a principal arma geopolítica para consolidar a influência dos EUA nos países latino americanos.
Como Funciona o "Escudo das Américas"
O ponto de partida do Escudo das Américas é a exigência de que os países aliados classifiquem cartéis de drogas e grandes facções criminosas regionais, como o PCC e o CV no Brasil, como organizações terroristas. Essa mudança jurídica abre precedentes para operações militares unilaterais ou extraterritoriais conduzidas por órgãos dos EUA. A diplomacia de Washington deixou claro que, caso os governos locais não consigam ou recusem conter o avanço dessas facções, os EUA reservam-se o direito de agir sozinhos dentro dos territórios sul-americanos e caribenhos. Sob o discurso de segurança, o projeto tem como objetivo controlar os países e seus ativos e riquezas minerais como o lítio, petróleo, minerais raros, biodiversidade e rotas comerciais, como o Canal do Panamá e o Porto de Chancay, recém inaugurado no Peru.
Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai e Peru assinaram o pacto, adotando a agenda de segurança de Washington, concordando com ações conjuntas e compartilhamento de inteligência sob a tutela norte-americana. Brasil e México recusaram-se a integrar a coalizão e estão sob constante pressão de sanções, tarifas comerciais e ameaças diplomáticas e militares vindos do governo Trump.Venezuela, Cuba e Nicarágua são os países que sofrem diretamente o bloqueio militar e econômico mais agressivo, tratados abertamente pelos EUA como focos de risco à segurança das Américas.
Riscos para a soberania na América do Sul
Por trás da retórica do combate às ameaças do narcotráfico, especialistas apontam uma clara estratégia geopolítica: manter a América Latina sob a esfera de influência econômica e militar dos EUA e bloquear a crescente penetração econômica e de infraestrutura da China.A consolidação da estratégia do "Escudo das Américas" gera sérios riscos de perda gradual da autonomia e soberania dos países sul-americanos.
A aceitação do enquadramento de grupos criminosos como entidades terroristas permite que os Estados Unidos justifique intervenções armadas, sobrevoos, vigilância digital e presença militar sem a autorização explícita dos parlamentos locais. A fronteira entre o combate ao crime interno e a violação da soberania de um país torna-se tênue.
Ao condicionar ajuda econômica e parcerias comerciais à adesão ao Escudo das Américas, as Forças Armadas e os órgãos de inteligência locais correm o risco de se transformar em extensores operacionais das Forças Armadas dos EUA . A América do Sul vinha consolidando nas últimas décadas uma diplomacia ativa e pragmática, diversificando parceiros econômicos na Europa, na Ásia (BRICS) e no Oriente Médio. O bloqueio promovido pelo Escudo das Américas pode limitar a liberdade comercial e tecnológica dos países latinos, impedindo-os de negociar infraestrutura ou acordos energéticos com países que os EUA consideram adversários.
Governo Lula defende a soberania nacional, já Bolsonaro reafirma adesão irrestrita do Brasil ao “Escudo das Américas”.

O governo federal recusou a adesão do Brasil à aliança do "Escudo das Américas", mantendo uma linha diplomática pautada na autonomia estratégica e no não intervencionismo. O Poder Executivo brasileiro se posiciona contra a reclassificação de facções criminosas como organizações narcoterroristas. A avaliação é de que o crime organizado no Brasil atua por motivação financeira e ilícita, e não por fins político-ideológicos para derrubar o Estado. Integrantes do governo e do Itamaraty alertam que aceitar a classificação de narcoterrorismo abriria precedentes para que os EUA realizem monitoramento digital, incursões de inteligência ou até mesmo operações militares extraterritoriais em solo e no espaço aéreo brasileiro, especialmente na região amazônica e nas fronteiras.
Em contraposição à posição oficial do governo, o senador e candidato da oposição Flávio Bolsonaro assumiu como compromisso central de sua plataforma externa e de segurança pública a adesão irrestrita do Brasil ao Escudo das Américas.
Flávio Bolsonaro defende que, caso assuma o governo, o Brasil deve ingressar no "Escudo das Américas" para agir em coordenação direta com os Estados Unidos e presidentes alinhados na América Latina.
Ser contra o Escudo das Americas é defender o Brasil
Transferir a definição das ameaças nacionais e a segurança interna para diretrizes imperialistas traçadas em Washington debilita o pacto democrático brasileiro. Historicamente, a aceitação de doutrinas impostas por potências hegemônicas resultou em subordinação política e retração da autonomia dos povos do Sul Global. A verdadeira estabilidade de um país constrói-se com o fortalecimento de suas próprias instituições, e não com a dependência da tutela estrangeira.
O enfrentamento às facções e ao narcotráfico é uma urgência real, mas deve ser conduzido por forças policiais e pelas Forças Armadas nacionais, atuando em regime de cooperação internacional de iguais, via diplomacia e inteligência compartilhada, sem a cessão de comando ou presença militar estrangeira.
Redação | Jornal O Decolonial





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