UFOP | "A imprensa dita alternativa tem um papel absolutamente fundamental." afirma pesquisadora.
Em uma entrevista publicada pela UFOP a professora e pesquisadora do Curso de Jornalismo, Karina Gomes, fala sobre imprensa livre, monopólios de comunicação e liberdade de imprensa no Brasil.

IMPRENSA EM FOCO | A professora do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) Karina Gomes Barbosa, doutora em Comunicação Social pela Universidade de Brasília e pesquisadora permanente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM-UFOP) participou da sessão "Em discussão", uma série de entrevistas temáticas realizadas pela UFOP com colaboração de professores e pesquisadores de diversas áreas do conhecimento da universidade. Confira parte da entrevista dada na última semana (01/06) em que Karina Gomes aborda questões como : imprensa livre e alternativa, monopólios de comunicação e liberdade de imprensa no Brasil.
A partir do momento em que temos uma imprensa concentrada nas mãos de poucos, qual a importância e as problemáticas da mídia alternativa?
"A imprensa dita alternativa tem um papel absolutamente fundamental. Primeiro para cobrir sujeitos, pautas e territórios que simplesmente não são atendidos pela grande imprensa. Ela traz à tona problemas de realidades locais muito restritas ou pequenas, cujos problemas não viram notícia. Aquela música "a dor da gente não sai no jornal" (Notícia de Jornal - Chico Buarque ) diz muito sobre isso. Outro grande ganho que a gente tem com o fortalecimento dessa imprensa alternativa é de, muitas vezes, apresentar à grande imprensa demandas de investigações. Como ela não tem tantas amarras políticas ou ideológicas ou os lastros comerciais das empresas tradicionais, muitas vezes tem liberdade para noticiar outros assuntos. Um caso recente no Brasil é o das denúncias de abuso contra Samuel Klein, fundador das Casas Bahia. É uma investigação descoberta pela Agência Pública, uma agência de jornalismo independente digital brasileira muito bem-sucedida. Havia um acordo de que essa investigação seria publicada com a Folha de São Paulo e na véspera da publicação a Folha desistiu de publicar. A Pública bancou sozinha essa publicação, que é um grande material de história absolutamente trágica e triste sobre como homens poderosos abusam sexualmente de mulheres e meninas no país. Como é um veículo com muita credibilidade, essa história foi rompendo um certo nicho de alcance da Pública até demandar de outros veículos, incluindo Folha, Globo, Estadão e outros. Se tornou insustentável não publicar. Então, a existência desses veículos tensiona o modo jornalístico tradicional. Com essas outras formas de se fazer jornalismo, o jornalismo volta a cumprir a sua função de informar os cidadãos para que eles possam tomar decisões e se movimentar no mundo. Diferente de algumas outras ocupações, o jornalismo é uma atividade que tem uma função pública primária. Não é à toa que no século 20 nós somos definidos como Quarto Poder. Nesses aspectos, o jornalismo independente tem papéis fundamentais no nosso cenário informacional e cobre também muitos casos que a gente tem chamado aqui no Brasil de "deserto de notícia". Tem uma pesquisa anual produzida pelo Atlas Notícia que tem mapeado iniciativas de jornalismo do Brasil e tem descoberto lugares no país onde não chega informação e não se produz informação. As pessoas que vivem nesses lugares não conseguem ter uma cobertura do executivo local, do legislativo, da saúde, da educação, da política. Isso é um deserto de notícias. Felizmente, o Atlas tem mostrado que os desertos estão diminuindo, ou seja, estão sendo preenchido com essas iniciativas normalmente locais e, em muitos casos, a mídia alternativa."
Anualmente, o Repórteres sem Fronteiras realizam um ranking que avalia a liberdade de imprensa nos países. Dentre os 180 países analisados, o Brasil ficou em 110º lugar neste ano. Além disso, de acordo com dados da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), a censura foi considerada a principal forma de violência contra a liberdade de imprensa em 2021. O que esses dados revelam sobre o momento brasileiro atual?
"Estamos vivendo no ambiente de um governo de extrema-direita que ataca diuturnamente o exercício do livre jornalismo, a liberdade de imprensa. É um ambiente perigoso como há muito tempo não é. Há uma permanente ameaça de violência física — em alguns casos os repórteres têm sido agredidos. Além disso, tem uma constante violência simbólica, especialmente sobre jornalistas mulheres. Elas são alvos de ataques na internet, têm a reputação atacada, são alvos de ataques pelos governantes, por parlamentares. Há uma rede de desinformação e de ódio muito grande em torno delas. A Patrícia Campos Melo relata em seu livro "Máquina do ódio" o número de ataques que sofreu, como produção de vídeos pornográficos utilizando imagens fake do rosto dela — que o filho dela assistiu. Então, é um ambiente muito deteriorado. A gente também não pode achar que antes o Brasil era um país pacificado, nunca foi. Mas essa queda brusca tem um diferencial. É a primeira vez em muitos anos desde a ditadura que o próprio estado ou governo, num aparato de Estado, é utilizado para cometer essas violências e para cercear a liberdade de imprensa. Não são ataques esparsos, o próprio Estado é um dos atacantes. Essas palavras de ódio incitam violência, legitimam violências. Uma coisa que a gente precisa entender numa sociedade democrática não violenta é que eu posso discordar da imprensa, posso questionar a cobertura e devo questionar os fundamentos daquela cobertura; mas quem faz aquela cobertura deve ser livre para continuar exercendo sua atividade, porque aquilo ali é um trabalho. As pessoas estão na rua trabalhando, não é uma pessoa sozinha que produz a linha editorial ou ideológica de um veículo."
Confira a entrevista na íntegra : https://ufop.br/noticias/em-discussao/liberdade-de-imprensa
Redação | Jornal O Decolonial |




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