UNEGRO Ouro Preto critica atuação da imprensa na cobertura do crime contra Moisés Antero Abraão.
Atualizado: 22 de mai. de 2022
Confira na íntegra a nota da UNEGRO, uma das entidades que representa o Movimento Negro na cidade de Ouro Preto.

A União de Negras e Negros pela Igualdade de Ouro Preto divulgou uma nota exigindo respeito à vida e a história de Moisés Antero Abraão, cidadão ouro-pretano e sujeito de direitos. A entidade fez duras criticas à cobertura midiática sobre o brutal ataque sofrido por "Moisés Salame" no último dia 19 de Abril.
O Jornal O Decolonial fez uma matéria sobre o crime contra "Moisés Salame" intitulada "Crime contra Moisés expõe falta de políticas públicas para moradores de rua e usuários de drogas." na intensão de chamar atenção para a falta de políticas públicas para as pessoas em situação de rua e usuários de drogas na cidade. A partir da nota da UNEGRO Ouro Preto absorvemos algumas das criticas apontadas e estamos abertos a repensar nossa abordagem na matéria, fazendo novos apontamentos e reportagens sobre a historia de luta e sofrimento com que muitos jovens são submetidos devido ao sistema injusto, opressor e racista vigente em nosso país e na cidade de Ouro Preto.
Confira a nota da UNEGRO na íntegra :

"Para a Unegro de Ouro Preto, União de Negras e Negras pela Igualdade, o episódio ocorrido com o cidadão Moisés Antero Abraão, conhecido como Salame, está impregnado de uma atmosfera racista absurda, o espectro da segregação racial que estrutura a sociedade ouro-pretana, cidade setecentista de passado escravista.
Ao divulgar os fatos, os veículos de comunicação de massa desumanizam a pessoa agredida, qualificando-a como “negro”, “morador de rua”, “drogado” com "passagens pela polícia". Da mesma forma, a informação se refere ao suposto agressor, apontado como "um homem negro, de aproximadamente 1,80 de altura" e "usuário de drogas".
Isto configura uma mentalidade preconceituosa: tais qualificações não avocariam o pertencimento étnico-racial, se o evento envolvesse não-negros; o destaque nesse ponto reflete o quão impregnado está o racismo em nossa sociedade e como é veiculado impunemente pela nossa imprensa local.
Causa espécie a insistência e o açodamento da informação.
Para a Unegro, ambos - agredido e agressor - são vítimas da mesma tragédia humana, vítimas da mentalidade colonialista de uma sociedade ainda racista, exclusivista, supremacista e que mata por ser negro ou negra.
Primeiro, Moisés Antero Abraão não é “morador de rua”; ele tem família bem estruturada, residência e domicilio em Ouro Preto; sempre foi pessoa de boa índole e refém das leis discricionárias do Estado.
Segundo, pessoas em situação de rua são vítimas da falência absoluta de políticas afirmativas de inclusão social, pois uma cidade insensível que ilustra a figura de pessoas negras como párias da sociedade é uma sociedade de castas, desumana e reacionária.
Terceiro, são “drogados”, ou seja – ambos, agressor e agredido - vítimas do mesmo sofrimento mental, resultante da pobreza e da indigência absoluta, sofrimento que joga milhares ao inferno da violência e da loucura.
Nesta mesma sociedade que tanto louva a meritocracia, faltam oportunidades de educação e trabalho para negros, pobres e moradores da periferia, dos morros desta cidade neocolonial.
Quarto, são criminosos recorrentes, com várias passagens pela polícia, segundo a imprensa local.
E como haveria de ser diferente?
Quanta hipocrisia! Na verdade, ambos são vítimas da violência urbana que atinge os párias da sociedade, os moradores de rua, os indigentes, as comunidades marginalizadas e periféricas de Ouro Preto. São vítimas da mesma violência que ceifa a vida de negros jovens, violência negada e silenciada pelos poderes públicos constituídos.
Constatado o crime odioso, o silêncio em Ouro Preto é ensurdecedor; a cidade se queda estupefata ante ao horror: como poderia ocorrer semelhante crime, justamente aqui?
A verdade é que nem a vítima nem o seu agressor se enquadram no padrão da elite neocolonialista, qual seja, macho, branco, proprietário e são.
Daí a pressa insana da imprensa sensacionalista para destacar em matéria policial que ambos são negros, moradores de rua, drogados e transgressores da lei.
Ora, nenhum argumento preconceituoso retira a violência do fato em si: o cidadão ouro-pretano Moisés Antero Abraão, conhecido como Salame, merece respeito, merece consideração!
Para a Unegro, Moisés Antero Abraão é vítima desta sociedade de classes e não pode ser enquadrado como mais um negro transgressor e marginal, conforme ilustrou friamente em cores mórbidas e cinzentas a imprensa arrivista, sensacionalista e serviçal do Estado.
Neste sentido, a direção da Unegro Ouro Preto deseja que a Justiça prevaleça e que o culpado seja sentenciado e punido.
Neste caso, a lei nos basta. Que seja cumprida."
Ouro Preto, 21 de abril de2022.
Assinam, Negras e Negros Pela Igualdade.



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