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Violência obstetrícia, é preciso falar sobre isso.

11 de mar. de 2022
3 min de leitura

Atualizado: 23 de mar. de 2022

Confira o texto da doula Laura Muller sobre violência obstetrícia.
Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

por : Laura Muller Sagrilo


A Região dos Inconfidentes é marcada pro grandes lutas históricas, mas há uma luta silenciosa, engolida. Pouco falada, pouco conhecida, pouco reconhecida. E é proposital que ela seja assim, que ela fique assim. Porque falar dela dói. Cutuca feridas que sangram e sangram nas mulheres dessa terra. Ouro Preto a anos tem suas mulheres marcadas por violências obstétricas constantes. Procedimentos que deveriam ser de conduta individualizada feitas de rotina, procedimentos já não recomendados pela Organização Mundial da Saúde ainda sendo feito, procedimentos já proibidos que são utilizados em mulheres e colocam elas e seus bebês em risco. Infelizmente por ignorarem que tais procedimentos são infundados e configuram violência obstétrica, muitas mulheres aguentam caladas as dores do parto e precisam lidar com puerpérios difíceis, onde seus sentimentos não são validados. Mas há o lado de quem luta e tem como trabalho levar informações às mulheres da comunidade.


Ouro Preto conta com Doulas e Educadoras Perinatais desde 2014 que trabalham incansavelmente para coibir a cultura da violência obstétrica, lutam para que mais mulheres tenham autonomia e respeito em seus partos. Trabalharam durante anos gratuitamente para Santa Casa de Misericórdia de Ouro Preto, forneceram oficinas de capacitação para funcionários, melhoraram as experiências de muitas e muitas parturientes e famílias que tiveram a oportunidade de terem elas auxiliando no trabalho de parto. Doulas são agentes transformadoras da sociedade. Como diz o médico obstetra francês, Michel Odent: " Para mudar o mundo é preciso mudar a forma de nascer."


Paralelamente a isso elas são mães e tem a doulagem como trabalho. Além do papel atuante nos partos e que não substitui nenhum profissional tradicionalmente envolvido na assistência, doulas tem um forte papel de preparação e de acolhimento no pós parto. Muitas mulheres após sofrerem violências obstétricas, das mais sutis, as mais severas, procuram as Doulas como forma de amparo e acolhimento para que não sejam invisibilizadas e silenciadas, já que todas as denúncias a Santa Casa não surgiram efeito. Com isso a Santa Casa tem se fechado a entrada de doulas, não porque as Doulas não fazem a diferença, mas porque não estão dispostos a mudar as práticas. Tanto é que a própria instituição, ao invés de estreitar os laços com as Doulas e formadoras de Doulas da própria comunidade e que já atuaram lá dentro com ótimos desfechos, buscou profissionais de fora para uma capacitação interna, corrompendo o papel da doula. A doula deve ser sempre de livre escolha da mulher, justamente para que caso haja qualquer violência obstétrica ela esteja ao lado da mulher e não da instituição que nega a mudança e insiste em procedimentos prescritos e sem embasamento científico atualizado.


Além de deturpar o papel das Doulas, de recusar a entrada das Doulas já atuantes na comunidade, a Santa Casa fechou o Banco de Leite Humano que ajudava a manter Ouro Preto entre as cidades com melhores índices de amamentação do Brasil, visto o prêmio Bibi Voguel de 2014. Em recente entrevista o provedor afirmou que os bebês não iriam passar fome, que fariam o que sempre fizeram, dariam "leite de fórmula", ignorando totalmente a gritante diferença na saúde de bebês alimentados com leite humano. A prevalência da amamentação reduz custos de saúde a curto, médio e longo prazo para toda comunidade. A OMS recomenda aleitamento materno exclusivo até os 6 meses e prolongado até 2 anos ou mais. Sem o banco de leite, além de muitos bebês não terem a chance de receber o melhor alimento, muitas mães com problemas de amamentação acabam desmamando seus bebês precocemente por falta de apoio, orientação e tratamento adequados, que era oferecido pelo Banco de leite humano da Santa Casa. Isso também configura violência obstétrica e neonatal, já que a Violência obstétrica não está atrelada apenas ao parto, mas a todo ciclo gravídico-puerperal da mulher.


As Doulas atuantes em toda região querem e precisam trabalhar. Elas merecem respeito e consideração. As mulheres e famílias merecem respeito em seus pré-natais, partos e puerpérios. Doulas não fazem partos, mas fazem toda diferença. Recusar a entrada das Doulas é ser conivente com violência obstétrica.


por: Laura Muller Sagrilo


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