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Coluna I Decolonial BR I Somos de todas as cores?

24 de out. de 2021
3 min de leitura
Confira o primeiro texto da Coluna Decolonial BR, coluna de Ativistas e Pesquisadores da decolonialidade no Brasil.


A Coluna Decolonial BR I já está no ar e será composta pelo Coletivo Nacional de Ativistas e Pesquisadores que estudam de forma aprofundada o tema da decolonialidade no Brasil. O Coletivo possui cerca de 200 participantes de diversos estados brasileiros e tem bastante presença na cidade de Ouro Preto, vários pesquisadores estão na UFOP e desenvolvem estudos e pesquisas a partir da perspectiva decolonial. Hoje o pesquisador Paulo Henrique Borges, Pós-Doutorando em Direito pela UFOP e coordenador geral do Coletivo Decolonial BR irá inaugurar a coluna com a temática do racismo estrutural e a representatividade negra no Brasil.

"Eu me considero de todas as cores"

por : Paulo Henrique Borges, Pós Doutorando em Direito pela UFOP


A atriz Gyselle Soares, ao ser criticada por representar Esperança Garcia, a primeira advogada negra do Piauí, no espetáculo “Uma escrava chamada Esperança” tentou explicar a situação, entre as argumentações ela disse: "Eu me considero de todas as cores, um ser humano com coração que pode sentir tudo. Estamos no mundo, somos todos iguais".

Com esse ocorrido, principalmente a partir da fala da atriz branca, podemos trazer à tona muitas problematizações, como a questão da representatividade negra, black face, igualdade, lugar de fala, racismo estrutural, entre outros. Todos de extrema importância, mas neste momento quero trazer ao baile outra questão: De onde vem essa distinção racial?


Autores como Mbembe, Dussel, Denise Fereira da Silva, entre outros, nos mostram que a questão racial não é algo natural, mas sim uma construção social. Essa construção se deu já no início da modernidade, onde a uniformização foi colocada como uma importante base para manter a estrutura social hierárquica que estava sendo criada. Com isso surgiram termos como negro, indígena, oriental, etc. Dentro de cada um destes termos existe uma diversidade incalculável, mas a estrutura de poder a reduziu a um termo para limita-la a invisibilizando e facilitando a perseguição de seus membros.

Em uma sociedade onde o sistema social não fosse considerado “moderno”, essa questão poderia ser menos relevante. Pois, talvez, nesta outra sociedade, a tonalidade da pele não fosse relevante, ao contrário poderia haver valorização de sua diversidade interna.


Realidade social brasileira e a peça teatral "Uma escrava chamada Esperança"

Hoje os negros, indígenas, PCDs, ou seja, todos os grupos historicamente excluídos são inferiorizados e sofrem diversas violências no cotidiano no Brasil. Uma delas é a ausência de representatividade e o apagamento histórico. Ambos estão presentes neste fato da peça teatral, pois se a personagem é de uma advogada negra sendo representada por uma pessoa branca, continua a lógica de que o lugar das pessoas negras é nos serviços de menor projeção social. Cabendo serem representados por negros somente quando são escravos ou domésticos.


Não Gyselle, você não é de todas as cores. Não, seu coração não pode sentir tudo. Não, nós não somos todos iguais. A estrutura social vigente não permite que você afirme isso. Prefiro acreditar que você deseja poder fazer essas afirmações, mas hoje não é possível. Não estou aqui para criticar as Gyselles do mundo, ao contrário, quero lhes convidar a compreender as estruturas existentes e quanto custam seus pequenos privilégios, para que possamos imaginar e construir uma outra estrutura social, onde essas questões estariam superadas. O caminho é longo e difícil, mas juntos podemos ter êxito nesta mudança.


COLUNA DECOLONIAL BR I

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